Sábado, 2 de Março de 2013



Desfaz-se (simbolicamente) a mandala

Há uma tradição no seio da escola tibetana do budismo que visa, entre outros objectivos rituais e operativos, treinar o desapego dos monges face àquilo que consideram seu, face à realidade que lhes é conhecida, no sentido de prepararem a mudança perpétua de que se compõe este mundo. É um aspecto do budismo que se aproxima bastante do materialismo tal como o entendem os marxistas, e que tem na dialéctica um aspecto central de toda a sua mundivisão.

A imagem da mandala de areia que se desfaz é aquela que me ocorre neste momento, quando escrevo este post final d'o Companheiro Vasco, um blogue diverso - no qual se falou de muitos assuntos, da guerra ao desporto, da música à política nacional - que foi por vezes mais feliz e outras vezes absolutamente infeliz, tendo em todo o caso a sinceridade como elemento transversal das abordagens produzidas.

O Companheiro Vasco foi um blogue que se aproximou perigosamente da ideia de certezas. O que marca a minha vida neste momento são porém as interrogações e as incertezas. É por isso que, uma vez mais, deixo para trás um espaço na blogosfera para abraçar uma nova casa, que se pretende diferente (se o será ou não é outra coisa...) no conteúdo, na forma, na dinâmica.

Ao contrário do que se passou no passado com outros espaços não apagarei o Companheiro. E esse será o elemento dissonante face ao ritual da destruição da mandala de areia cuja imagem utilizei para iniciar este post. Não é que esteja apegado ao que escrevi, nada disso. Acontece que a blogosfera é uma rede toda interligada, e sei que há posts de amigos, camaradas ou leitores ocasionais que remetem para aqui. Apagar conteúdos resultaria numa mutilação involuntária mas real de textos que não são meus. Trata-se no fundo de uma questão de respeito, creio.

Sigo para o 10 mil insurrectos, título que sai directamente de "O navio de espelhos", poema de Mário Cesariny. Passem por lá (ou para lá), se for caso disso.

A todos/as um grande abraço!

Sexta-feira, 1 de Março de 2013

Thief



(Tangerine Dream)

Basta.

10:00
Praça da República | Horta

14:00
Praça 5 de Outubro | Torres Novas

14:30
Liszt Ferenc tér | Budapeste
Praça 25 de Abril | Caldas da Rainha

15:00
Praça Velha | Angra do Heroísmo
Avenida Central | Braga
Praça da República | Coimbra
Praça do Município| Covilhã
Narvavägen 32 | Estocolmo
Embaixada Portuguesa | Londres
Parque da Cerca | Marinha Grande
Consulado Geral de Portugal | Paris
Largo 2 de Março | Ponta Delgada
Praceta Alves Redol | Santarém
Rossio | Sines
Jardim em frente ao Colégio | Tomar
Praça da República | Viana do Castelo

16:00
Estação CP | Aveiro
Largo do Museu | Beja
Praça do Município | Castelo Branco
Largo das Freiras | Chaves
Estação da CP | Entroncamento
Praça do Giraldo | Évora
Largo do Carmo | Faro
Praça do Município | Funchal
Praça Velha | Guarda
Fonte Luminosa | Leiria
Praça Marquês de Pombal | Lisboa
Praça da República (Mercado) | Loulé
Avenida da Liberdade | Ponte de Sor
Praça Manuel Teixeira Gomes | Portimão
Praça da Batalha | Porto
Largo José Afonso | Setúbal
Frente à Câmara Municipal | Vila Real
Jardim de Santa Cristina | Viseu

16:30
Praça da República | Portalegre

17:00
Consulado Geral de Portugal | Barcelona
Calle de Lagasca | Madrid

18:00
Boston Public Library | Boston

Poe

"(...) Temos perante nós uma tarefa a realizar, e queremos levá-la a cabo rapidamente. Sabemos que atrasá-la causará a nossa ruína. A mais importante crise da nossa vida exige, a toque de clarim, energia e acções imediatas. Ardemos de impaciência, consome-nos uma ânsia de começar o trabalho, a nossa alma inflama-se com o gozo antecipado do trabalho glorioso. Devemos, deveríamos, começar hoje essa tarefa e, todavia, atrasamo-la para o dia seguinte. E porquê? Não há resposta, a não ser  que nos parece perverso, utilizando essa palavra sem compreender o princípio. Chega o dia seguinte e, com a mais impaciente ansiedade de cumprir o nosso dever, mas com esse ansiedade acrescentada, chega, também, o desejo indizível e absolutamente pavoroso de atrasá-lo de novo. Este desejo ganha força à medida que o tempo passa. Está à porta a última hora em que se pode empreender a acção. Trememos com a violência do conflito que se gera dentro de nós - do definido contra o indefinido, do concreto contra a sombra -, mas se a luta chegou a esse ponto, é a sombra que prevalece... já lutamos em vão."

em "O demónio da perversidade" ("The Imp of the Perverse", 1845), de Edgar Allan Poe.
Conto incluído no livro "Histórias Extraordinárias"


Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2013

Hatchback

Este projecto - "Hatchback" - anda a fazer-me sonhar. Podem ler sobre ele aqui e aqui. Do disco que agora oiço todos os dias, aconselho a faixa que podem checar em baixo, "Orinoco Waltz".


Breves notas sobre "os partidos" (1)

1. Há uma antipatia bastante disseminada na sociedade portuguesa face aos partidos políticos. Esta antipatia tem razões diversas, incluindo históricas, e nos últimos 36 anos é alimentada pela mentira, pela dissimulação, pelo comprometimento com grandes interesses e com a corrupção que marca a actividade dos partidos que têm ocupado de forma rotativa o poder em Portugal: PS, PSD, PS com PSD, PS com CDS, CDS com PSD.

2. É errado em todo o caso afirmar-se "os partidos são todos iguais". Não são. E quem o afirma revela logo à partida uma manifesta incapacidade para analisar a realidade do programa, das propostas, da orgânica interna, da intervenção externa, da seriedade e coerência das diferentes organizações políticas nacionais. É que existem tantas diferenças, e diferenças tão evidentes, que apenas a repetição mecânica e acéfala do chavão "são todos iguais" ou uma certa incapacidade para olhar a realidade, podem justificar tamanho disparate. Há partidos iguais (no essencial) entre si, é verdade. Mas há também partidos absolutamente distintos destes do sistema. Parece inegável.

3. Os partidos não são o alfa e o ómega da intervenção política em Portugal. Quero dizer, não é apenas nos partidos que as pessoas podem intervir politicamente no seio da sociedade. Existem expressões associativas/organizativas várias que proporcionam a todos aqueles que sintam necessidade e vontade de dizer o que pensam e sobretudo actuar em conformidade possibilidades muito diversas para o poderem fazer.

4. A fraca adesão dos portugueses a todas as expressões de associativismo (e em especial às expressões associativas com intervenção social efectiva) vem de certa forma demonstrar que mais do que a tal antipatia bastante disseminada na sociedade portuguesa face aos partidos políticos o que na verdade existe no nosso país é uma bem patente antipatia das pessoas face a todas as formas de organizações e actuação colectiva, para lá do circunstancial. A maioria de nós não participa sequer nas reuniões de condomínio, quanto mais em formas superiores de organização em torno de causas, projectos, reivindicações e aspirações de projecção nacional e internacional...

5. Quem não se quer mexer, quem não quer assumir compromissos com pares - com pessoas que, no fundamental, pensam da mesma maneira e olham a realidade com as mesmas inquietações e esperança - arranja facilmente álibi para o auto-imobilismo em que se encontra na natureza "corrupta" (e afins) ou ineficaz das várias formas de organizações popular (partidos incluídos) que tem à sua disposição. Infelizmente esta é a situação em que se encontram milhões de portugueses. As razões para o imobilismo são várias, não vale a pena uniformizar o que é diverso. A consequência tende a ser a mesma: a manutenção do status quo.

Os livros e os putos



(via Blogtailors)

Ao retardador

O Fantasporto 2013, melhor festival de cinema fantástico realizado em Portugal (e um dos melhores do circuito internacional do género) já arrancou há 3 dias. Fica a nota, ao retardador, com convite à exploração da programação. Muitos destes filmes estão disponíveis por aí, e merecem bem a pena. Tenho descoberto projectos e realizadores muito interessantes, ao investigar títulos e nomes que até então nada me diziam.


Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2013

Os "políticos", em Auschwitz

Comecei "Se isto é um homem" no final de Janeiro e ainda o tenho na mochila, com três capítulos por ler.

Os primeiros capítulos são muito interessantes e fundamentais para a compreensão aquilo que foi o processo de encarceramento, escravização e eliminação em massa de pessoas nos campos de concentração e extermínio da Alemanha nazi. Mas depois a narrativa - verídica - torna-se labiríntica, catártica, introspectiva, e na minha perspectiva injusta face aos presos políticos (em especial os alemães) que foram encerrados no campo de Auschwitz.

Primo Levi esteve lá, creio que entre o final de 1943 e a libertação de Janeiro de 1945. Eu nunca visitei sequer o campo. Não tenho pois a pretensão de dar lições a quem viveu Auschwitz na primeira pessoa, longe de mim.

Em todo o caso creio que são totalmente injustas as considerações contidas em "Se isto é um homem" relativamente aos presos políticos (comunistas, fundamentalmente) de várias nacionalidades (incluindo alemães), que estiveram sempre - sempre! - na primeira linha da resistência ao nazi-fascismo também dentro dos campos, entre os quais Auschwitz.

Não é aliás correcto separar os presos judeus dos presos por razões políticas, já que se a principal razão para o encarceramento, escravização e extermínio de homens, mulheres, crianças e velhos judeus era apenas e tão só o facto de serem judeus, não é menos verdade que entre os presos políticos existiam muitíssimos judeus. Incluindo entre os comunistas alemães e entre os prisioneiros de guerra soviéticos.

É igualmente verdade que os presos políticos se distinguiram sempre pela sua postura irrepreensível face aos restantes presos dos campos, com excepção para aqueles que optavam por se vender como bufos e colaboracionistas aos guardas e responsáveis dos campos. Sobre o assunto aconselho a leitura do arrepiante romance "Nú entre lobos" (baseado em acontecimentos verídicos), do escritor comunista alemão (também ele preso em Buchenwald) Bruno Apitz.

Olga Benário Prestes.
Judia e militante do KPD (Partido Comunista Alemão). 
Assassinada pelos nazis no campo de extermínio de Bernburg, em Abril de 1942.

"Se isto é um homem" foi escrito e publicado bem em cima da guerra. Suponho que muito se terá debatido e escrito sobre esta aspecto particular que trato neste post. Seja como for aqui fica o reparo, que considero inteiramente justificado.

Gestapo (*)

Ando a compor, a enriquecer, a minha (já longa) prateleira dedicada ao nazi-fascismo alemão. Este comprei-o hoje, na Pó dos Livros. Custou-me 9,90€ e esgotou o orçamento de Março para livros. É também isto, o momento que vivemos. O banqueiro, diria, por entre arrotos a lagosta, que tenho muita sorte em ter comida na mesa.


Nazi-fascismo alemão e banqueiros no mesmo post. Confere.


(*)